O processo criativo é um percurso contínuo de fluidez de raciocínios inconscientes. É talvez onde acontece o maior dar de mim. É uma viagem de ininterrupta interiorização que me consome e me leva a registar as emoções com as quais me cruzo e que me atravessam. Tomo então consciência do que vejo ao viajar. Paro. Nascem novos conceitos, surgem novas temáticas, que são fruto de anteriores paragens ao longo deste percurso contínuo. Exteriorizo e transfiro para o imenso branco da tela a exaltação que me vai na alma e que é afinal a essência do que me leva a pintar.
Busco, não a pureza das formas femininas, mas sim o transformar da banal nudez em emoções extraordinariamente vibrantes, que sinto na fase final de cada pintar, onde, após uma pausa imposta a mim mesmo, descarrego sobre a volumetria contida e estudada, as agressivas e negras pinceladas caladas na própria condição do ser-se gordo, aos olhos de uma sociedade de alma cada vez mais anorectica e cruel.
É para mim um desafio, olhar nos olhos e enfrentar, os cânones estéticos que a sociedade estabelece e idolatra, enquanto reprova e estigmatiza o “menos belo”.
Pinto as emoções sentidas por mulheres que por uma ou outra razão ocupam mais espaço no cosmos. Mulheres que tantas vezes gostariam de ser bailarinas mas que se veem obrigadas a dançar sozinhas, no escuro, em silêncio, no sonho... Pois se ousam falar das suas ambições são certamente motivo de riso ou até mesmo de exclusão porque, cada vez mais, o parecer se sobrepõe ao ser.
Esta é a sociedade, na qual nos inserimos. Uma sociedade onde os valores humanos são muitas vezes atropelados por valores que nada valem.
Assim são as mentes gordas, as almas magras.
Ricardo Passos, 2006
