Ricardo Passos foi convidado a expor, por Marina Cruz, a propósito da comemoração do seu 30º aniversário do Espaço de Arte Marina Cruz.
Onze obras da série "Ditos", onde alguns provérbios portugueses são transportados para os seus significados literais, despindo-se das metáforas originais.
"Não será beleza, também, a desconstrução dos estereótipos que podemos estarrecidos admirar na obra de eximia complexidade de Ricardo Passos, convocando-nos para um império dos sentidos?"
Um Pouco Acrílico sobre tela | 100 x 160 cms (díptico) | Da série "Ditos"
Ricardo Passos participa com a obra "UM POUCO" no Prémio Utopia 2009. O Prémio UTOPIA baseia-se no conceito da Arte Fantástica contemporânea, que se caracteriza pela transformação do real em imaginário e tem sempre uma conotação figurativa ou representativa, além de transmitir diversas abordagens que podem ir do sonho ao sobrenatural, das premonições às visões do mundo ou mundos diferentes, passando por expressões de crises sociais, além do cómico, do mítico, do erótico ou do horror.
"(...) Portugal tem uma longa tradição de ditos e provérbios populares. Passos não é indiferente a esta realidade, abordando-a com ironia e humor, transportando os provérbios para os seus significados literais, despindo-os das suas metáforas originais, mas carregando-os de novos significados.
“A cara de um é o focinho do outro”, por exemplo, mostra-nos, de um modo cortante, o ridículo da expressão em que um focinho de porco toma o lugar de um nariz. Deste modo, recorrendo ao absurdo, o artista questiona e leva-nos a questionar a validade dos provérbios populares. A coerência visual é tão importante como a coerência conceptual no trabalho de Ricardo Passos. Nesta exposição apercebemo-nos da ironia, do humor e da crítica social que caracterizam todo o seu trabalho."
Artista plástico cosmopolita e de assumida contemporaneidade, Ricardo Passos reconhece Alter do Chão como solo fecundo onde se encontram enraizadas as relações familiares, as memórias de infância e os afectos genuínos. A sinceridade com que revive as cores, os aromas, os sons deste “seu cantinho alentejano” atesta do indisfarçável carinho que nutre por esta vila o que, de per si, bastaria para que as portas do Castelo de Alter do Chão se abrissem para acolher a sua obra. Vivendo há tantos anos na cidade, consegue ainda reviver a sua experiência nesta vila de um modo tão contagiante, que torna impossível, àqueles que a não conhecem, resistir ao desafio de “experienciar Alter do Chão”. (...) Por esta via se alcança uma simbiose entre espaço e obra tão curiosa quanto difícil de alcançar e, por isso mesmo, merecedora de um olhar particularmente cuidado que proporcionará, certamente, uma experiência irrepetível.
Mafalda Sadio (Vice-Presidente da Câmara Municipal de Alter do Chão)
Com o Rei na Barriga - XXVII Da série "Com o Rei na Barriga" acrílico s/ tela com fragmentos de folha de prata 100 x 100 cms 2009
DE COR CINZENTA
Desliza a coroa Esboroa-se a mente Não sabe o que sente De tanto sentir Sentir a tristeza Do fraco poder Sentir que não sente As mágoas da gente
Deslizam as coroas Na colcha de seda Estira-se o corpo Na manta cinzenta Desfaz-se o sorriso De cor bacilenta
Também os meninos Na lata nascidos Têm cor bacilenta E dedos cinzentos Da terra que pegam Da água sem brilho da água com cor
De cor bacilenta E vestes cinzentas Se vestem idosos Que sentem a dor A dor de não terem Os filhos presentes Sentem os ausentes Nas ruas dormentes
Três mundos num mundo três de cor cinzenta Com brilho e sem brilho E cor bacilenta
Se todos unidos Mostrarmos tais mundos Com traços profundos Podem surgir normas De todas as formas E tudo mudar
de Célia Alves Artista Plástica
Quem não tem olhos, vê com os óculos Da série "Provérbios Portugueses" acrílico sobre tela 100 x 170 cms (díptico) 2009
A coerência visual é tão importante como a coerência conceptual no trabalho de Ricardo Passos. Nesta exposição, vemos duas das suas séries e percebemos a ironia, o humor e a crítica social que caracterizam todo o seu trabalho. A série “Com o Rei na Barriga” fala-nos de responsabilidades, de pressão social, de deveres, de ansiedade e até de alguma hipocrisia. Tudo isto dito com ironia, com um sorriso no olhar e com questões que Passos nos faz e que, na nossa sociedade contemporânea, são actuais e pertinentes. Portugal tem uma longa tradição de ditos e provérbios populares. Passos não é indiferente a esta tradição e questiona os provérbios com ironia e humor. Transportando os provérbios para os seus significados literais, despe-os das suas metáforas originais mas carrega-os de novos significados na série Provérbios Portugueses.